Resenhas de Contos de Clarice Lispector – um estudo dos nonos anos de 2018

UMA RESENHA SINCERA

Por: Sofia Fernandes Faltz e Gabriela Fernandes Moriggi

      O conto “Uma amizade sincera” de Clarice Lispector, está presente no livro “Felicidade Clandestina”, publicado pela mesma. Nele,  a autora nos apresenta a história de uma amizade completa, desde o seu início e ascensão, até o seu desgaste emocional.

       Clarice Lispector nasceu em uma pequena cidade na Ucrânia, mudou-se ao Brasil com sua família e naturalizou-se brasileira, logo depois. A autora se formou em Direito, trabalhou como jornalista e teve muito sucesso em  sua carreira literária.

       A autora tem um estilo de escrita bem específico, sempre explorando a epifania, o monólogo interior, o fluxo de consciência e abordando temas universais. Também há em suas histórias a predominância de personagens femininas, porém, em “Uma amizade sincera”, o protagonista é masculino.

Juliana Klein e Patrícia Mozar, estudantes de Letras, afirmam que os textos de Clarice Lispector fazem uma sondagem mais profunda da mente humana. Essa observação está intimamente ligada conto, já que as reflexões do protagonista são exploradas ao longo da história.

       Para aqueles que acham que os textos de Lispector são simples demais, o crítico Luis C. Lima ressalta: “a linguagem de Lispector contém como uma armadilha à sua simplicidade enganosa… não se iluda leitor: por trás dessa aparente simplicidade linguística, muitas verdades dolorosas se escondem…”.

       A leitura do conto em questão vale a pena, assim como qualquer obra de Clarice Lispector. É uma oportunidade de comparar suas histórias com as experiências pessoais, e refletir sobre a vida.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

 

MAL-ESTAR DE UM ANJO

 Por: Cassiana Boccia, Isabela Joubeir  e Lumma Trofino

            O conto “Mal-estar de um anjo”, de Clarice Lispector, foi publicado em 1971 e tem como tema central a infelicidade e a maldade dos indivíduos, uns para com os outros, o bem e o mal que fazem parte de cada um de nós.

            Os textos de Clarice abordam profundamente os pensamentos humanos. As características físicas das personagens não são importantes, a maioria nem nome apresenta, enquanto que as ações  têm importância para ilustrar o psicológico. Também é parte do estilo de Clarice a epifania, ou seja, uma revelação que possibilita a compreensão de algo.

            A história inicia-se em meio à chuva, com uma mulher vagando pelas ruas, perdida e desiludida, pois quanto mais ela caminhava, mais ela percebia sua maldade e egoísmo.

            Segundo o biógrafo, Diogo Guedes: “Você pode defini-la (Clarice Lispector)  como uma da autoras latino-americanas, que foram realmente originais ao escrever uma história”.

            O conto reflete as relações existentes entre a mente da autora e sua percepção do meio social, e faz o leitor refletir sobre o egoísmo e a exploração de pessoas que se aproveitam umas das outras. O conto estimula reflexões.

            Para aqueles que consideram os textos de Clarice difíceis de se compreender, vale lembrar que a autora, apenas, nos mostra  realidades  que, querendo ou não, são vivenciadas  por várias famílias.

            Clarice Lispector, nascida na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920, foi  escritora e jornalista brasileira. De origem judia, é reconhecida como uma das mais importantes escritoras do século XX.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. São Paulo: Ática, 1984.

 

UMA AMIZADE SINCERA COM CLARICE LISPECTOR

Por: Laura Isabelle Gama Martins, Maria Fernanda P. Sacon e  Mariana Gonzalez Veiga

            O conto “Uma Amizade Sincera”, de Clarice Lispector, foi publicado em 1999, no livro “Felicidade Clandestina”.

            Mantendo suas características de estilo, Clarice mantém a epifania  e o fluxo de consciência, quando pensamentos, emoções e lembranças, são narrados simultaneamente.

            O conto retrata a vida de dois personagens que, no último ano do colégio, acabam cultivando uma amizade sincera e intrigante, em que tudo era compartilhado. Quando as novidades se tornaram escassas, os dois tomaram rumos inesperados pelo leitor.

            Conforme a análise publicada pelo Guia do Estudante, “Assim como aparece em outros contos de Clarice, a relação entre as pessoas parece estar fundamentada em uma ‘relação de troca’ […]”.

            A história é tão bem escrita, que nos faz pensar em nós mesmos; deixando o assunto fácil de se entender e de se tratar,  pois é do cotidiano de todos.

            Para quem acha que os textos de Clarice têm uma linguagem complexa, vale lembrar que se o tema tem significado para nós, a compreensão fica mais fácil.

            Clarice Lispector é ucraniana, mas cresceu em Recife e foi naturalizada brasileira. Formou-se em Direito e foi jornalista, mas sua verdadeira paixão era escrever. Morreu em dezembro de 1977, com um câncer generalizado.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

 

POR QUE LER “A QUINTA HISTÓRIA”?

 Por: Cauê Kriechle

       O conto “A quinta história”, publicado pela primeira vez no livro “Felicidade  Clandestina”, de Clarice Lispector, em 1971, tem como tema central o ato de matar baratas, algo banal e cotidiano, mas que nos faz pensar a respeito da condição humana. A autora cria cinco estórias dentro de uma, fato que torna o texto interessante.

            Em seus textos, Lispector utiliza recursos como a exploração de perfis femininos e o monólogo interior, que identificam seu estilo. Esses recursos dão credibilidade e aproximam o leitor do texto, além dos temas desenvolvidos por ela que são atuais e levam o leitor, de uma forma ou de outra, a se identificar com sua escrita e apreciá-la.

            O conto começa com uma queixa sobre baratas no apartamento da protagonista e, assim, se desenvolvem três histórias. A quarta insere a substituição de um procedimento das personagens para matar baratas. Todas, no entanto, resultam no início da quinta, abandonada pela autora. Isso sugere o fenômeno de inércia em seus textos  ̶  eles poderiam não ter fim, simplesmente!

            “Clarice constrói em poucos parágrafos variações de um mesmo argumento, uma espécie de desdobramento de histórias que se sucedem a partir de um mesmo ponto: como matar baratas”, é o que afirmam Mariângela Alonso e Guacira Leite, escritoras.

            O texto em si é genial: a autora convence que coisas fúteis, às quais não damos importância, podem ser notadas. Vale a pena conhecer a obra, pois a mesma surpreende quem a lê.

            Para aqueles que não apreciam seus textos, vale ressaltar que ela trata de temas modernos  e aproxima-os do leitor, para que se identifiquem  com os assuntos.

            Clarice Lispector nasceu na Ucrânia e veio para o Brasil ainda pequena. Culpada pela doença e morte da mãe, começou a escrever com certo grau de melancolia. Seus textos, até hoje em dia, fazem sucesso e recebem críticas positivas.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. São Paulo: Rocco, 1971.

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GÊNEROS LITERÁRIOS

Olá, alunos dos nonos anos!

Esta será nossa última atividade deste ano. Última, mas extremamente importante para a continuidade dos seus estudos no Ensino Médio. Trata-se dos gêneros literários, ou seja, uma forma de classificar as produções que foram escritas ao longo dos anos.

Há muito tempo atrás, durante a Antiguidade Clássica,  surgiu a ideia de organizar os textos pelas características comuns que eles apresentavam. Surgiram, com o tempo,  três classificações: textos líricos, dramáticos e épicos.

GÊNERO LÍRICO: vem da palavra “lira”, o instrumento musical utilizado pelos gregos para acompanhar seus cantos. Por muito tempo as poesias eram cantadas, mas depois veio a ser produzida para ser declamada, sem o acompanhamento do instrumento musical. Não perdeu, porém, a musicalidade, e até hoje faz uso de recursos como rima, rítmica, métrica, estrofes e versos, combinações de palavras, figuras de linguagem, dentre outros recursos que são essencialmente musicais. A poesia moderna trouxe muitas novidades, desprendendo-se destes recursos e abraçando o verso livre, sem rima, sem métrica, com estrofes irregulares.

O gênero lírico caracteriza-se também por expressar emoções, sentimentos e sensações, sendo um texto subjetivo. A grande maioria das poesias pertencem a este gênero, mas podem também pertencer ao gênero épico, dramático ou narrativo.

Vejamos as principais poesias pertencentes ao gênero lírico: Ode, hino, elegia, idílio, écloga, epitalâmio, sátira.

GÊNERO DRAMÁTICO: vem da palavra “drama” que, em grego, significa “ação”. Compreende os textos feitos para serem representados (encenados), pressupondo a existência de um público e de atores que farão a representação do texto. Dentro do gênero dramático, encontramos as seguintes modalidades:tragédia, comédia, tragicomédia, farsa.

GÊNERO ÉPICO: vem do grego “épos” (verso) + “poieô” (faço), e faz referência à narrativa feita em forma de versos. Geralmente conta histórias de fatos grandiosos e heróicos sobre a história de um povo. Tem como característica a presença de um narrador que fala do passado, o que faz com que os verbos apareçam no tempo pretérito.

Atualmente, porém, para fins didáticos, alguns autores desmembram do gênero épico, o gênero narrativo (ficção), no qual se encaixam as narrativas em prosa.

Outros autores, ainda, denominam também o chamado gênero DIDÁTICO, que engloba todos os textos que não são produzidos como literatura, mas com o  objetivo de serem utilizados para fins didáticos.

Exemplos de gêneros literários:

  • Gênero lírico

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneirathe_gardener_by_trixis
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

 


  • Gênero épico

 

  • Gênero dramático

Seu trabalho é:

a) Escrever no campo “Comentários” a justificativa para a classificação dos três textos;

b) procurar outro exemplo de gênero lírico e inseri-lo no campo comentário, justificando suas escolha.

 

Referências

ARAÚJO, Ana Paula de. Disponível em:<http://www.infoescola.com/literatura/genero-literario/&gt;. Acesso em 22 nov. 2016.

BARROS, Manoel de. Disponível em: <http://www.revistabula.com/2329-os-10-melhores-poemas-de-mario-quintana/&gt;. Acesso em 22 nov. 2016.

Atividade interdisciplinar sobre a leitura de “O menino do pijama listrado”

Olá, nonos anos!

A atividade sobre a leitura de “O menino do pijama listrado” será interdisciplinar, ou seja, envolverá as disciplinas de Língua Portuguesa e História. A pontuação será única,  no valor de 2 pontos, e o trabalho deve ser enviado para o email das professoras  até o dia  18 de novembro.

Vocês deverão trabalhar em trios e elaborar uma apresentação em Power Point, de acordo com as orientações abaixo. Sejam criativos!

1º slide: título, imagem e nome do grupo;

2º slide: localização geográfica do campo de concentração retratado no livro: mapa e descrição do campo por escrito.

3º slide: contextualização histórica:  o que foram os campos de concentração, por que foram montados, como funcionavam as câmaras de gás, o que era a “solução final”.

4º slide: pesquisar e escrever um pequeno relato de um sobrevivente do campo de concentração retratado na obra.

5º slide: fazer a comparação dos capítulos 18 ao 20 do livro às cenas correspondentes do filme, quanto aos aspectos abaixo:

  • tempo transcorrido;
  • planejamento da última aventura dos amigos;
  • descrição do tempo que os amigos passaram juntos no campo de concentração;
  • descoberta do ocorrido com Bruno por seu pai

6º slide: escrever a opinião do grupo sobre o livro, embasando-a com, pelo menos, dois argumentos.

7º slide: interpretar a frase presente na abertura do filme: “A infância é medida por sons, aromas e visões, antes que o tempo da razão se expanda.”

Como vocês já assistiram ao filme, o link abaixo servirá, apenas, para vocês relembrarem algumas passagens. Bom trabalho!

Nossa nova jornada…

Caro(a) visitante, para ler os comentários de cada post, basta clicar sobre os títulos.

 

Olá, queridos alunos!!!

Nossa próxima leitura será o livro “O menino do pijama listrado”, que conta uma história de extrema sensibilidade. Apesar de fictícia, o contexto em que se insere traz informações de um tempo obscuro, de extrema violência e de injustiça. Então, vamos começar a  nos envolver com esse assunto e a conhecer suas origens.

Acesse os QR Codes a seguir. O primeiro apresentará o autor do livro, John Boyne. Precisamos conhecê-lo, não é mesmo? O segundo, algumas informações sobre a Segunda Guerra Mundial.

Mas… quais teriam sido as razões da Segunda Guerra Mundial? Por que o mundo ficou tão dividido e por que razões tantas pessoas morreram? O que foi o holocausto? O que teria motivado tanta crueldade? O que você sabe sobre esse assunto?

Procure informações sobre essas questões e poste-as no campo comentário, até 22/08. Você pode também indicar sites/links sobre o assunto, escrevendo uma pequena descrição do que poderemos encontrar, nos ambientes que você sugerir.

Bom trabalho!

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Os dois nomes… os dois mundos… os vários poemas…

Olá, moçada!

Esta  atividade encerrará nossos trabalhos com o blog neste semestre e diz respeito às pesquisas que fizeram sobre Cecília Meireles e Ferreira Gullar.  Seu valor é de 0,5 ponto.

Os poemas desses autores, que estão a seguir, foram  escolhidos dentre todos aqueles que vocês analisaram. Leiam-nos, atentamente, e façam a comparação entre o tema e a forma (métrica, estrofação, rimas…)  de cada um.

O grupo do blog pode discutir as respostas, mas cada um de vocês deverá escrever o comentário, individualmente, e postá-lo.

Considerem tudo o que estudaram e não se esqueçam de que cada autor tem seu próprio estilo de se expressar, o seu estilo individual.

 

TRADUZIR-SE

Ferreira Gullar

Uma parte de mim

é todo mundo;

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera;

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta;

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente;

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem;

outra parte,

linguagem.

Traduzir-se uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?

RETRATO

Cecília Meireles

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

– Em que espelho ficou perdida

a minha face?

 

A poesia de Ferreira Gullar

Olá, nonos anos!

Além de Cecília Meireles, muitos outros poetas brasileiros desenvolveram um trabalho poético especial. Ferreira Gullar é um deles e também será estudado por nós, nessa segunda etapa do ano letivo. Na página Para ampliar, há um link para conhecer a biografia do autor. Acesse-a.

Seu trabalho, para o dia 9 de maio, é ler o poema abaixo e fazer sua análise, seguindo os mesmos parâmetros do trabalho com o poema de Cecília Meireles. Você deve trazê-la em seu caderno para a aula de  Língua Portuguesa.

Não se assuste com o tamanho do poema. Ele é longo, porque é da literatura de cordel, mas sua linguagem e sua história são muito envolventes. Divirta-se, também, ouvindo a música Literatura de Cordel, do cordelista Francisco Diniz, que explicará a você o que é esse tipo de literatura.

Até o dia 9 de maio, deixe seu comentário, dizendo o que achou da música e se você compreendeu o que é o cordel.

Tenho certeza de que irá gostar! Bom trabalho!

Profa. Patrícia

João Boa-Morte. Cabra marcado pra morrer 

Vou contar para vocês
um caso que sucedeu
na Paraíba do Norte
com um homem que chamava
Pedro João Boa-Morte
lavrador da Chapadinha:
talvez tenha boa morte
porque vida ele não tinha.

Sucedeu na Paraíba
mas é uma historia banal
em todo aquele Nordeste.
Podia ser no Sergipe,
Pernambuco ou Maranhão,
que todo cabra-da-peste
ali se chama João
Boa-Morte, vida não.

Morava João nas terras
de um coronel muito rico,
tinha mulher e seis filhos,
um cão que chamava “Chico”,
um facão de cortar mato,
um chapéu e um tico-tico.

Trabalhava noite e dia
nas terras do fazendeiro,
mal dormia, mal comia,
mal recebia dinheiro;
se não recebia não dava
para acender o candeeiro.
João não sabia como
fugir desse cativeiro.

Olhava pra’s crianças
de olhos cavados de fome,
já consumindo a infância
na dura faina da roça.
Sentia um nó na garganta.
Quando uma delas almoçava
as outras não, a que janta
no outro dia não almoça.

Olhava para Maria,
sua mulher, que a tristeza
na luta de todo o dia
tão depressa envelheceu.
Perdera toda a alegria
perdera toda a beleza
e era tão bela no dia
que João a conheceu.

Que diabo tem nesta terra,
neste Nordeste maldito,
que mata como uma guerra
tudo que é bom e bonito?
Assim João perguntava
para si mesmo e lembrava
que a tal guerra não matava
o coronel Benedito!

Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor
não mata quem é dono de engenho,
só mata cabra-da-peste
só mata o trabalhador.
O dono do engenho engorda,
vira logo senador.

Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do coronel Benedito
tiveram com ele um atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era tão baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.

João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
“Não vamos voltar atrás.
Prescisamos de dinheiro,
se o coronel não dá mais
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro”.

Com o coronel foram ter
mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
“Ainda está para nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço.”
O pessoal se assustou.
Sabiam que o fazendeiro
não brinca com lavrador.
Se quem obedece morre
de fome e desespero,
quem não obedece corre
ou vira “cabra morredor.”

Só um deles se atreveu
a vender seu cereal.
Noutra fazenda vendeu
mas vendeu e se deu mal.
Dormiu mas não amanheceu.
Foram encontrá-lo enforcado
de manhã num pé de pau.
Debaixo do morto estava
um cabra do Benedito
que dizia a quem passava:

“Esse moleque maldito
pensou que desrespeitava
o que o patrão tinha dito.
Toda planta que aqui nasce
é planta do coronel,
ele manda nesta terra
como Deus manda no céu.
Quem estiver descontente
acho melhor não falar
ou fale e depois se aguente
que eu mesmo venho enforcar.”

João ficou revoltado
com aquele crime sem nome.
Maria disse: “Cuidado,
não te mete com esse homem.”
João respondeu zangado:
“Antes morrer enforcado
do que sucumbir de fome.”

Nisso pensando, João
falou com seus companheiros:
“Lavradores, meus irmãos,
esta nossa escravidão
tem que ter um paradeiro.
Não temos terra, nem pão,
vivemos em um cativeiro.
Livremos nosso sertão
do jugo do fazendeiro.”

O coronel Beneditino
quando soube que João
tais coisas havia dito
ficou bravo como o cão.
Armou dois “cabras” e disse:
– “João Boa-Morte não presta,
não quero na minhas terras
caboclo metido a besta.”

“Vou Lhe dar uma lição.
Ele quer terra, não é?
Pois vai ganhar o sertão.
Vai ter de andar a pé
desde aqui ao Maranhão.
Quando virar vagabundo
vai ter de baixara a crista.
Vou avisar todo mundo
que esse cabra é comunista.
Quem mexe com o Benedito
bem caro tem de pagar.
Ninguém lhe dará um palmo
de terra pra trabalhar.”

Se assim disse, assim fez.
João foi mandado embora
de seu casebre pacato.
Disse a Maria: ” – Não Chora,
todo patrão é ingrato.”
E saíram mundo afora,
ele, Maria, os seis filhos
e o facão de cortar mato.

Andaram o resto do dia
e quando a noite caía
chegaram numa fazenda:
“- Seu doutor, tenho família,
sou homem trabalhador.
Me ceda um palmo de terra
pra eu trabalhar pro senhor.”

Ao que o doutor respondeu:
“Terra aqui tenho sobrando,
todo este baixão é meu.
Se planta e colhe num dia,
pode ficar trabalhando.”
“- Seu coronel, me desculpe,
mas eu não sei fazer isso.
Quem planta e colhe num dia,
não planta, faz feitiço.”
“- Neste caso, não discuta,
acho melhor ir andando.”

E lá se foi Boa-Morte
com a mulher e os seis meninos.
Talvez eu tenha mais sorte
na fazenda dos Quintinos.”
Andaram rumo do Norte,
para além da Várzea dos Sinos:
“- Coronel, morro de fome
com seis filhos e a mulher.
Me dê trabalho, sou homem
para o que der e vier.”

E o coronel respondeu:
“- Trabalho tenho de sobra.
E se é homem como diz
quero que me faça agora
esta raiz virar cobra
e depois virar raiz.
Se isso não faz, vá-se embora.”

João saiu com a família
num desespero sem nome.
Ele, os filhos e Maria
estavam mortos de fome.
Que destino tomaria?
Onde iria trabalhar?
E à sua volta ele via
terra e mais terra vazia,
milho e cana a verdejar.

O sol do sertão ardia
sobre os oito a caminhar.
Sem esperança de um dia
ter um canto pra ficar,
à sua volta ele via
terra e mais terra vazia
milho e cana a verdejar.

E assim, dia após dia,
andaram os oito a vagar,
com uma fome que doía
fazendo os filhos chorar,
mas o que mais lhe doía
era, com fome e sem lar,
ver tanta terra vazia
tanta cana a verdejar.

Era ver terra e ver gente
daquele mesmo lugar,
amigos, quase parentes,
que não podiam ajudar,
que se lhe dessem pousada
caro tinha que pagar.
O que o coronel ordena
é bom não contrariar.

A muitas fazendas foram,
sempre o mesmo resultado.
Mundico, o filho mais moço,
parecia condenado.
Pra respirar era um esforço,
só andava carregado.
“- Mundico, tu ta me ouvindo?”
Mundico estava calado.

Mundico estava morrendo,
coração quase parado.
Deitaram o pobre no chão,
no chão com todo cuidado.
Deitaram e ficaram vendo
morrer o pobre coitado.

“- Meu filho”, gritou João,
se abraçando com o menino.
Mas de Mundico restava
somente o corpo franzino.
Corpo que não precisava
nem de pai nem de pão,
que precisava de chão
que dele não precisava.

Enquanto isso ali perto
detrás de uma ribanceira,
três cabras com tiro certo
matavam Pedro Teixeira,
homem de dedicação
que lutara a vida inteira
contra aquela exploração.
Pedro Teixeira lutara
ao lado de Julião
falando aos caboclos para
dar melhor compreensão
e uma Liga organizara
pra lutar contra o patrão,
pra acabar com o cativeiro
que exista na região,
que conduz ao desespero
toda uma população
onde só o fazendeiro
tem dinheiro e opinião.

Essa não foi a primeira
morte de encomenda
contra um líder camponês.
Outros foram assassinados
pelos donos da fazenda.
Mas cada Pedro Teixeira
que morre, logo aparece
mais um, mais quatro, mais seis
– que a luta não esmorece
agora que o camponês,
cansado de fazer prece
e de votar em burguês,
se ergue contra a pobreza
e outra voz já não escuta,
só a voz que chama pra luta
– voz da Liga Camponesa.

Mas João nada sabia
no desespero em que estava,
andando aquele caminho
onde ninguém o queria.
João Boa-Morte pensava
que se encontrava sozinho
e que sozinho morreria.

Sozinho com cinco filhos
e sua pobre Maria
em cujos olhos o brilho
da morte se refletia.
Já não havia esperança,
iam sucumbir de fome
ele, Maria e as crianças.
Naquela terra querida,
que era sua e não era,
onde sonhara com a vida
mas nunca viver pudera,
ia morrer sem comida
aquele de cuja lida
tanta comida nascera.

Aquele de cuja mão
tanta semente brotara,
que filho daquele chão,
aquele chão fecundara;
e assim se fizera homem
para agora, como um cão,
morrer, com os filhos, de fome.

E assim foi que Boa-Morte
quando chegou a Sapé,
desiludido da sorte,
certo que ia morrer,
decidiu que aquele dia
antes da aurora nascer
os cinco filhos mataria
e mataria a mulher
depois se suicidaria
para acabar de sofrer.

Tomada essa decisão
sentiu que uma paz sofrida
brotava em seu coração.
Era uma planta perdida,
uma flor de maldição
nascendo de sua mão
que sempre plantara a vida.

Seus olhos se encheram d’água.
Nada podia fazer.
Pra quem vive na mágoa,
mágoa menor é morrer.
Que sentido tem a vida
pra quem não pode viver?
Pra quem plantando e colhendo
não tem direito a comer?
Pra que ter filhos, se os filhos
na miséria vão morrer?
É preferível matá-los
aqueles que os fez nascer.

Chegando a um lugar deserto
pararam para dormir.
Deitaram todos no chão
sem nada para se cobrir.
Quando dormiam João
levantou-se devagar
pegando logo o facão
com que os ia degolar.

João se julgava sozinho
perdido na escuridão
sem ter ninguém para ajudá-lo
naquela situação.
Sem amigo e sem carinho
amolava o seu facão
pra matar a família
e varar seu coração.

Mas como um louco atrás dele
andava Chico Vaqueiro,
um lavrador como ele
como ele sem dinheiro
para levá-lo para a Liga
e lhe dar um paradeiro
para que assim ele siga
o caminho verdadeiro.
Pra dizer-lhe que a luta
só agora vai começar,
que ele não estava sozinho
não devia se matar.
Devia se unir aos outros
para com os outros lutar.
Em vez de matar os filhos
devia era os libertar
do jugo do fazendeiro
que já começa a findar.

E antes que Boa-Morte,
levado pela aflição,
em seis peitos diferentes
varasse o seu coração,
Chico Vaqueiro chegou:
“- Compadre, não faça isso
não mate quem é inocente.
O inimigo da gente
– lhe disse Chico Vaqueiro –
não são os nossos parentes,
o inimigo da gente
é o coronel fazendeiro.

O inimigo da gente
é o latifundiário
que submete a nós todos
a esse cruel calvário.
Pense um pouco meu amigo
não vá seus filhos matar.
É contra aquele inimigo
que nós devemos lutar.
Que culpa tem seus filhos?
Culpa de tanto penar?
– Vamos mudar o sertão
pra vida deles mudar.”
Enquanto Chico falava
no rosto magro de João
uma nova luz chegava.
E já a aurora, do chão,
de Sapé, se levantava.

E assim se acaba uma parte
da história de João.
A outra parte da história
vai tendo continuação
não neste palco de rua,
mas no palco do sertão.
os personagens são muitos
e muita a sua aflição.
Já vão compreendendo
como compreendeu João,
que o camponês vencerá
pela força da união.
[..]

GULLAR, Ferreira.  Toda poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

Vamos analisar um poema!

Querido(a) aluno(a)

Certamente, você já leu algum texto de Cecília Meireles. São vários os poemas de sua autoria que circulam nas mídias e em livros.

Hoje, o seu trabalho é ler  o poema a seguir e analisá-lo seguindo as orientações do post anterior. Vamos ver o que você consegue fazer?

Se achar mais fácil, siga os passos abaixo:

    1. Informe-se sobre a biografia da autora. Há um link para isso, na página Para ampliar.
    2. Leia o poema, verifique palavras desconhecidas e identifique os seus significados.
    3. Releia o poema, para alcançar uma melhor compreensão.
    4. Pesquise em que época ele foi escrito, para perceber possíveis influências do contexto.
    5. Identifique a ideia central do poema.
    6. Redija uma pequena síntese do conteúdo, com suas palavras.
    7. Verifique se o poema está dividido em estrofes.
    8. Verifique se há rimas e, se houver, classifique-as (Veja link sobre rimas na página Para ampliar.).
    9. Procure identificar as figuras de linguagem empregadas no poema. Será que há alguma? Qual? (Reveja, se necessário, o PPT sobre esse assunto, disponível no post anterior.)
    10. Se não houver rimas ou divisão em estrofes, procure descobrir por que isso aconteceu. Para isso faça uma pesquisa sobre o Modernismo, ou seja, o período literário em que Cecília Meireles escreveu. Há um link sobre isso também, em Para ampliar.
  1. Enfim, escreva um parágrafo bem estruturado (Reveja o material de Produção Textual.), expondo seu parecer sobre o poema.Tenho certeza de que você fará um excelente trabalho!

Faça esta atividade em seu caderno de Língua Portuguesa, para o dia 03/05/16.

A arte de ser feliz

Cecília Meireles

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.